A GRIPE ESPANHOLA E SEUS EFEITOS. NO MUNDO E NO BRASIL
- Por: Benjamin Maia
- 30 de mar. de 2020
- 6 min de leitura
Há pouco mais de 100 anos, o Brasil foi assolado por um surto de gripe (INFLUENZA), que já vinha atingindo vários países da Europa e também os EUA, durante a Primeira Guerra Mundial. Vários fatores colaboraram para que a GRIPE ESPANHOLA se espalhasse com tanta rapidez e letalidade. O principal fator de proliferação do vírus na época, foi a ocultação da gravidade da doença, de sua letalidade e de sua rápida proliferação. Os países envolvidos no conflito, dentre eles os EUA, Inglaterra, Alemanha França, Áustria, para não abater o moral de suas tropas no front de guerra, preferiram ocultar os casos de contaminação. Na Espanha, que nesta guerra ficou neutra, não houve a ocultação dos casos, dando a impressão que os casos se iniciaram naquele país. Mas não há definição da origem. A mais aceitável é a de que ela se iniciou na Base Militar de Fort Riley, no Kansas, EUA. Em março de 1918, um soldado, em treinamento para embarcar para a Europa, e combater na Guerra, adoeceu de uma forte gripe. Naquela mesma semana já havia mais de 200 soldados doentes. Em duas semanas, já havia mais de 1000 militares contaminados, se alastrando para outros acampamentos. No pico da contaminação, a doença acometeu mais de 1500 militares em um único dia, se espalhando para o restante do país, e pegando carona para a Europa, através de seus soldados, ganhando o mundo, em seguida.
Acredita-se que entre 50 e 100 milhões de pessoas morreram em consequência da gripe espanhola, com 500 milhões de contágios no mundo inteiro. Em seus 6 primeiros meses, já havia 25 milhões de mortes, levando muita gente a temer o fim da humanidade, na época.
Muita gente acreditava que aquela CEPA viral devido às suas características e rapidez de contágio era extremamente letal. Mas aquela CEPA, embora mortífera, principalmente nas populações mais jovens e adulta, não se diferenciava dos vírus que causaram epidemias em anos anteriores. Sua alta taxa de mortalidade, se deveu em grande parte à enormes aglomerações nos campos militares, e também nos ambientes urbanos, que já estavam inchando, além da má qualidade da alimentação e das condições sanitárias precárias que havia naquele período, principalmente durante a Guerra. Acredita-se hoje, que muitas mortes foram derivadas de pneumonias.
Não havia na época, o tratamento através de antivirais específicos, o que não mudou muito nos dias de hoje, pois os tratamentos geralmente são usados para aliviar os sintomas, ou então para prevenir a contaminação por CEPAS já conhecidas dos vírus. Outra hipótese era a excessiva administração da aspirina que, em doses elevadas, causavam hemorragias.
Também colaborou a falta de uma melhor divulgação dos fatos, pois havia temor por parte dos políticos, dos funcionários públicos e da polícia de que ocorresse desordem pública e pânico. No auge da pandemia, as autoridades resolveram reagir, estabelecendo quarentenas nas cidades, restringindo a circulação de pessoas.
A GRIPE ESPANHOLA NO BRASIL E SEUS EFEITOS
No Brasil, os efeitos da gripe espanhola não foram muito diferentes do que no resto do mundo. Havia poucas informações. Mas as que foram registradas, demonstravam um quadro gravíssimo de saúde pública, agravadas por más condições sanitárias pré-existentes
As narrativas eram de que parecia um filme de horror. Cadáveres jaziam na porta das casas, atraindo vetores e urubus. Ar fétido. Os que ousavam caminhar nas ruas, o faziam com passos largos e ligeiros, para fugir da misteriosa doença. Carroças chegavam para recolher os corpos e enterrá-los em covas coletivas, sem nenhum cuidado no seu manuseio.

Muitos coveiros foram acometidos da doença, o que fez com que a polícia saísse à caça de homens com saúde e robustez para enterrar a enorme quantidade de corpos que jaziam à céu aberto. Já não havia caixões suficientes.

A gripe veio junto com o Transatlântico inglês Demerara. Em um mês, o país inteiro estava mergulhado no caos daquela pandemia. A gripe espanhola dominava o cenário político, jornalístico e econômico do país. Discussões intermináveis eram estabelecidas. Nem os governantes foram poupados, como o então Presidente Rodrigues Alves. Eleito para um segundo Mandato em março de 1918, Rodrigues Alves não pôde tomar posse, assumindo interinamente em seu lugar o Vice Presidente Delfim Moreira. Rodrigues Alves nem chegou a iniciar novo Mandato, morrendo em janeiro de 1919 em consequência da gripe.



A gripe espanhola, assim como o coronavírus, foi uma gripe democrática, não distinguia classe social ou preferências de raça ou religiosa. Atingiu a todos, desde o mais abastado, ao mais humilde.
Tanto naquela época, quanto hoje, no que se refere ao Brasil, faltaram estatísticas confiáveis, principalmente por órgãos governamentais que batiam cabeça por semanas, sem estabelecer uma política adequada para combater os efeitos do vírus. A única certeza era a de que aquela epidemia, era avassaladora. Os registros de mortes em apenas um dia, chegavam a superar mil mortes

Comerciantes fecharam suas portas, moratórias de dívidas foram decretadas, o Governo resolveu finalmente proibir aglomerações públicas, com fechamento de todos os locais de aglomeração e sua desinfecção.
Remédios milagrosos foram oferecidos como cura ou prevenção da gripe, mas sem nenhuma comprovação científica e eficácia. Ofertas variadas foram feitas, “...desde água tônica de quinino, a balas à base de ervas, de purgantes a fórmulas com canela”. A enorme procura, fez com que as farmácias elevassem os preços às alturas, obrigando a Prefeitura a tabelar os preços dos remédios.

O Governo pouco fazia, não havia hospitais públicos, os cuidados geralmente eram feitos por filantropia ou através das Santas Casas e a Cruz Vermelha, que recebiam pouca ajuda do Governo. Os doentes acometidos pela gripe espanhola, geralmente procuravam estas unidades, ou as Delegacias de Polícia. As famílias mais abastadas geralmente se refugiavam em fazendas no interior, para tentar manter distância do vírus.

Em face da enorme multidão que buscava as Santas Casas para atendimento, corriam muitos boatos(já haviam FAKE NEWS na época), de que a Santa Casa ministrava um chá envenenado em seus pacientes, para acelerar sua morte e abrir mais vagas. Este chá ficou conhecido como chá da meia noite e ficou famoso até no Carnaval, mas não passava de um boato de mau gosto visando difamar a Santa Casa. Os Jornais apelidavam a Santa Casa como "Casa do Diabo". Isto gerou revolta no Deputado Azevedo Sodré que ficou indignado com a campanha de difamação:
"-O povo, não sabendo a quem incriminar pela desgraça que o ferira e pelo abandono em que se achou, revoltou-se contra a Santa Casa de Misericórdia, que representa quase toda a assistência pública desta capital. O povo parece não saber que a Santa Casa, afora um subsídio pequeno que lhe concede o governo, vive do favor do público, desse espírito de filantropia tão vivo no seio da nossa população.
No auge da crise, prefeitos e governadores se dão conta de que não podem permanecer de braços cruzados. Com certo atraso, distribuem remédios e alimentos, improvisam enfermarias em escolas, clubes e igrejas e convocam médicos particulares e estudantes de medicina".

A gripe espanhola repentinamente desapareceu, talvez devido à sua violenta propagação, restando poucas pessoas para infectar, talvez pela morte de seus hospedeiros, ou talvez por uma nova mutação para uma CEPA menos violenta. Fato é que o susto já passando, o Governo finalmente resolveu agir e buscar fazer reformas na área de saúde, afim de prevenir novos casos de infecção viral. Apresentou Projetos que não andavam, que finalmente só começaram a ganhar forma na virada de 1919 para 1920, com as Reformas Federais na estrutura da saúde pública brasileira, plantando assim, as sementes para a criação uma década depois, do Ministério da Saúde à época Ministério dos Negócios da Saúde Pública, e também para a criação do SUS.

O fato é que a GRIPE ESPANHOLA teve um efeito devastador no mundo em geral(por ocultação das informações), e no Brasil em particular por negligência do Governo Central em proibir a circulação de pessoas e a não imposição de quarentena aos navios que viam tanto da Europa, como dos EUA, evitando assim uma provável contaminação ou até a disseminação massiva do vírus.
Negligência que pode ser atestada na manchete do Jornal A Gazeta de Notícias narrando “A DESÍDIA CRIMINOSA DO GOVERNO”:

Tais eventos, foram registrados principalmente através de notas do Senado da República, como esta nota, publicada em 2018, que foi a principal fonte de informação desta publicação:


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